Ouço incansáveis vozes que insistem em minha
cabeça retumbar, mas para a propaganda mundana
nela não há lugar, e se minha alma não é um item a
negociar não podem me subjugar.
Ignorem minha existência e não me tentem. Não
procuro uma proposta de vida, então não me
enfrentem. Não estou amistoso, só desgostoso,
mentalmente cansado, mas nunca manipulado.
Confie em poucos. Confie nos loucos. Entenda
a insanidade da mente que vive livremente nos
mentalmente perturbados e naqueles poucos
loucos pelo sistema ainda não moldados.
Há uma febre em minha cabeça querendo arder,
uma ira reprimida a libertar, lágrimas de sangue a
verter, paredes a quebrar e um coração
adamantino a manter.
Lucas O. Ornaghi
Houve o tempo em que a declamação se tornou a prece
tímida de uma sombra esquecida na escuridão,
enquanto a luz da poesia se apagava cada vez mais no
frio coração de um poeta em solidão.
Tudo parecia ser em vão, a vida passou a ter o peso de
uma obrigação, a mente vagueava à procura de uma
nova ilusão, já que longe queria estar da realidade
presa à razão.
A única sensação era a de despertar sempre no chão,
em constante alienação, uma porta de saída para
escapar de dias de tédio e frustração sem aparente
solução.
Até que um dia pousou uma pomba branca em minha
mão carregando-me para longe do desgosto e
insatisfação desses tempos, dando-me motivos para
viver então.
Daquela pomba um anjo em forma de mulher se
revelou, sua voz me convidou, nas nuvens distantes me
levou, os alicerces da minha alma amparou e a paz das
ondas do mar tu me presenteaste.
Tu se tornaste a aurora, a noite sombria, o eterno
devaneio do amanhã, o contínuo pensamento, a
importância de cada momento, a alegria que ilumina a
minha alma em noites de trevas e sofrimento.
Tu és a saudade, a amizade que me resgata da
usualidade, leva-me além das fronteiras da realidade
para um mundo criado em instantes de felicidade e
liberdade.
Quem me dera poder conhecer a pessoa secreta que em
seus pensamentos tu revelas ser, desvendar seu olhar e
em minha cabeça escutar o que seus olhos têm para me
falar.
Tu me destes forças para sonhar, a capacidade de em
poucas palavras verdadeiro significado dar, encontrar,
a necessidade de o precioso momento idealizar, um
coração para amar e nas asas da tempestade te buscar.
Lucas O. Ornaghi
Estaria a felicidade longínqua e oculta dos caminhos
do coração? Teria a beleza se esvaído numa pintura
desvanecida pelo tempo? Seriam elas páginas já
esquecidas e não mais folheadas de livros? Estariam
elas morrendo neste mundo de eternas ilusões?
Velejando só o mar calado da flagelação não se
abale com as ondas da consternação, não pranteie
em vão o horizonte da desilusão, não deixe a
incerteza se arraigar em seu coração, não ouça seus
pensamentos sombrios que querem te causar aflição.
Juntos, prezada amiga, sopraremos a tormenta que
desespero em sua alma fomenta. Juntos
dissiparemos as sombras que pesadelos alimentarão,
da indesejável lembrança te recordarão e para uma
vida de lamentação te acordarão.
Juntos, estimada companheira, confrontaremos esse
mundo de escuridão, distinguiremos a falsa realização,
interpretaremos a cega idealização, e nas sendas da
retidão pisaremos para procurar pela verdadeira
satisfação.
Em nosso lugar perfeito não haverá tempo para
encontrar um defeito ou em uma lágrima sentir seu
efeito. Por que não tornar algo belo e perfeito por
valorizar um momento ou mesmo um sublime
sentimento?
Quando o futuro amanhecer, a luz do sol em sua
janela enfim bater, um anjo em um lindo pássaro
aparecerá, em seu canto o passado de trevas
perecerá e a alegria há muito distante no tempo e no
coração em ti renascerá.
Sua alma, amada irmã, não mais se entristecerá, em
sua vida um tempo de paz e serenidade se sucederá,
ao amor tu te renderás, com o próprio sorriso se
comprometerás e bons momentos então junto aos
amigos compartilharás. Lucas O. Ornaghi
Em meio às sombras se dirige um moribundo,
que nas últimas nesse mundo fugaz, olhando
para trás, vê que nunca foi capaz de viver em
paz, e no viver de um último estio, fatigado
pela leviandade dessa humanidade e
alquebrado por um denso fastio, sua
fragilidade o torna flébil.
Em sua indelével futilidade, sua alma, já
ignorada, do curso da vida quase
completamente apagada, não mais é
pressionada, não mais é forçada a viver
perturbada, não mais é acostumada a se ver
limitada pela sua enfadonha usualidade e a
sentir-se sem utilidade.
Na efemeridade de dias em que religiões
alegam saber a verdade, mas na realidade
encobrem sua insanidade, adeptos têm suas
revelações, e enquanto há eclosões de novas
facções, explosões se tornam imagens
esquecidas de reportagens de revistas
empilhadas em seu armário.
Fugindo de um intolerável viver ordinário,
mais um confinamento diário, reza o
moribundo para tão rápido como foi o seu
surgir ele assim também possa partir e não ter
de ver o ruir desse Éden de concreto, que
abandona Deus no esquecimento, achando
isso algo correto.
Sem mais comprometimento ou envolvimento
com nada nem ninguém, cansada do desdém,
em profunda consternação e sem mais
resignação, sua alma enlouqueceu e ninguém
mais a entendeu, mas no fundo do poço ela
não permaneceu - um fim a isso ela
rapidamente deu.
Lucas O. Ornaghi
Ó semblante constante de outrora, acanhado e
enlevado contemplava a sua resplandecência,
mudo anelando seus traços divinos e obsesso
lamentando minha dependência. Ó semblante
perturbante de outrora, a verdade é que tu
não mais diferes agora.
No abrolhar de muitas alvoradas perdidas, em
meu devanear, a pintava do âmago de minha
alma com os mais belos versos apaixonados,
mas em minha obsessão fui consumido pela
consternação, e prostrado pela dor mergulhei
em um grande clamor.
O meu corpo começou a se definhar em meio a
tanta ingratidão, insensibilidade e rejeição, e
nas trevas do chão de meu quarto, rodeado
por versos inacabados e copos esvaziados,
ouvindo o sussurro das sombras em meus
ouvidos, em minha languidez temporariamente
enlouqueci e de viver esqueci.
Teimando com a minha alma, eu, um renegado
paciente, para ela um incômodo insistente,
mantinha-me à espera de um mero gesto de
apreciação, de um pouco de gratificação, mas
quando me dei conta de que seu olhar nunca
percorreria-me sabia que frustração
novamente eu teria.
Na minha ardente dedicação, levianamente
vivia meus dias em função do que agora não
passa de uma decepção, de uma estrela
apagada em meu coração, de um buraco negro
de sofrimento, de uma mera recordação já se
ofuscando no esquecimento.
Aprisionado à rejeição e lamentação há muito
deixei de estar, pois com o tempo fui compelido
a mudar, em uma pessoa consciente a me
transformar, e agora sei da tolice que há em no
amor se desperdiçar o limiar de uma existência
que não tarda para se findar.
Lucas O. Ornaghi
Apegada ao frio do inverno, desponta essa manhã de
pálida primavera, e sôfrego rezando para que ouças
meu clamor, desesperada minha alma sonha em ter
seu amor, tu que és tão singular quanto o rebentar de
muitas das flores que mais tarde envolverão esse
horizonte de perfume e cor.
Contemplar o abrolhar das primeiras delas é enxergar
a essência das belezas ocultas de nossa mãe Gaia,
mas por mais que a natureza a mim distraia, é com
sua saia que sou fustigado, que sou tentado,
conduzido à perdição e aprisionado a essa paixão de
contínuas dores de aflição.
Na alucinação de um dia conquistar seu coração,
acordo martirizado pelo viver desorientado de um
jovem aterrorizado, que fica imobilizado quando te
vê, sem saber como reagir, sem reconhecer o que
pela primeira vez está para sentir.
Minha consolação é que agora, embora eu ainda não
tenha o seu coração, através desses versos tu terás
noção de que por ti estará sempre preservada a minha
sincera afeição, uma vez que te amar se faz minha
eterna motivação.Lucas O. Ornaghi
Era o mês de abril, eu me sentia tão vazio
quando de um lento fastio das trevas da
noite ela surgiu, vulnerável me viu, em
seguida sorriu, e meu coração sucumbiu
e não resistiu ao anelar esse anjo que das
sombras luziu, me seduziu e depois partiu.
Na escuridão de uma noite sem Lua, nem
estrelas, sua voz de calhandra me guiou,
o perfume trescalando de seus cabelos a
brisa levou e me enfeitiçou, sua rara
beleza a paixão despertou, seus lábios
minha alma escravizou e ao beijo da
morte me condenou.
Nas horas mortas nós dançamos com a
musicalidade do vento, e sob o frescor do
relento ela me amou e sugou minha
mortalidade quase à última gota de
humanidade, que no solo caiu e
lentamente se esvaiu da felicidade
incompreendida da vida de simplicidade.
Tudo tão rápido como um arrepio na
minha vida se resumiu, a sede logo me
consumiu, a escuridão logo me abduziu,
o sangue humano como um
incomparável vinho também me atraiu e
um vampiro essa filha da noite produziu.
Sem maldade, sem responsabilidade,
vivi na naturalidade de minha nova
identidade, na insanidade de uma
constante necessidade, e ao passo que a
minha idade avançava, eu continuava
um jovem da eternidade, de séculos de
mera vaidade.
Milênios se findaram, vampiros o sangue
dos vivos sugaram, mas enfastiei-me ao
permanecer cativo dessa existência sem
objetivo, ao viver tanto só para descobrir
que nada passou de um eterno
desencanto para uma alma há muito em
pranto.
Lucas O. Ornaghi
Flutuando na imensidão do universo em questão,
um astronauta sem razão para ter olhos de glória,
não enxerga a escória, não entende nem se
surpreende com o rumo da História, não observa
A Terra que o homem faz de serva ou a religião
desse mundo em desespero e desilusão, que põe
no coração do cego o céu como segunda opção e
o inferno como incentivo à santa devoção.
Vejo da janela terras desoladas, casas pela chuva
levadas, lágrimas não consoladas, perdas não
evitadas, mulheres violentadas, cidades
bombardeadas, mães que pelo desespero foram
tomadas, velhas adoentadas, crianças apavoradas
que choram amarguradas, faveladas vivem
esfomeadas, desorientadas, não amadas, nascendo
para serem abandonadas e pela rua criadas.
Em meus pesadelos almas flageladas ecoam vozes
que no escuro tristeza sussurram, minhas mãos
geladas suam, meus olhos não mais se situam, mas
não recuam, sabem que estou distante, longe de
estar o bastante para saciar a insatisfação de meu
coração de estudante, que nunca teme o que lhe
está adiante, continua sempre avante, sem deixar de se
preocupar e sua paixão pelo mundo se arraigar.
Pensamentos voam em minha mente, palavras ecoam
de repente, ideias em meu subconsciente redefinem o
presente, e de um jovem consciente se concebe um
pensador excelente, um descobridor inteligente, uma
pessoa eficiente, ciente desse ambiente que abriga
meu mundo carente e as pessoas descrentes,
personagens de um quadro deprimente que ainda
se mostra presente.
Cansei de ignorar o vermelho luar que sangra acima
do mar de insanidade em que se afoga a humanidade,
e enquanto o mundo rodando alto está clamando,
prossigo com meus olhos estudando, o conhecimento
das páginas dos livros buscando, o misterioso da vida
experimentando, meus sentimentos poetizando, meus
devaneios estimulando, meus sentidos explorando e a
mim mesmo ao viver de cada dia superando.
Lucas O. Ornaghi
À medida que a escuridão de quarteirão em
quarteirão chega a ti como um grilhão,
observe um mundo de sofreguidão partilhar
de uma mesma ilusão e cedo também te
levar para a perdição.
No ritmo dessa alienação muitos ainda
dançarão, suas almas entregarão, seus
sonhos matarão e nessa nova condição
paixões jamais cultivarão, felicidade já não
conhecerão.
Os anos passarão, as cãs logo aparecerão e
em lassidão e sem realização aos poucos
todos um dia sucumbirão, pois insatisfação
seus olhos revelarão e sua própria existência
deplorarão.
Tarde ressentirão ter gastado uma vida em
vão, ter vendido o coração e sacrificado a
compreensão, a percepção, tempo que agora
não passa de rápida abstração, de uma
dolorosa decepção.
A cada nova emoção, em seus íntimos
renasce a perturbação, a evocação de um
passado de desilusões, difíceis lições que
trazem a sensação de um vazio sem solução,
de um fastio sem resignação. Lucas O. Ornaghi
Com a chuva se misturam lágrimas superficiais
de um bandido, ao passo que rubro e sem
sentido se esvai novamente despercebido o
sangue de mais um que foi pelo mal rendido.
A luz da aurora ilumina uma mórbida viela de
vidas ceifadas, vozes não mais pronunciadas,
fazendo da abstraída menina que vai para a
escola vítima eterna de rostos sem vida.
Olhos frios de um policial percorrem com
normalidade a atrocidade da alma perecida,
que na dor de cada indelicada ferida gritou em
protesto contra os abusos de seu homicida.
Durante a noite o médico-legista assoviando
logo vai acomodando lúgubres hóspedes numa
comprida gaveta, sala de espera que anuncia
o fim da vida desses bebês de proveta.
Na cova escura os pensamentos perecem,
inativos e em decomposição corpos
desaparecem, incorporando-se ao solo do qual
foram formados e terminaram desafortunados.
Mas não vá com a morte se perturbar, não há
um só fantasma que voltou para reclamar, não
há sombras na escuridão, apenas anonimato e
um retiro inanimado de solidão.
Lucas O. Ornaghi
Viver se tornou um desespero silencioso, um
envelhecer ocioso. Deveríamos usar o tempo para
amar e não sermos tolos em ficar à mercê da
incerteza que essa vida nos vai arrastar.
Queremos dormir, por poucas horas partir, não
mais existir e a angústia deixar de sentir, mas não
deixam-nos nem no sono fugir. Clamemos então
como o som de vozes perdidas a se propagar.
Sem saber onde pisar aprendemos a orar, a
esconder a lágrima que brilha no olhar. Oramos
para as vozes reprimidas da psique expulsar e de
quem amamos não termos mais de nos afastar
nem nas sombras quem somos ocultar.
A vida de ponta cabeça é difícil como um quebra-
cabeça, pois em mundos jamais penetrados não
existem respostas, nada é definitivo e tudo se
perpetua na estrada para o enigmático.
Somos todos sombras uns para os outros, tão
obscuros quanto o próprio universo, que se
estende além do alcance dos olhos, que abriga
mundos inexplorados, jamais penetrados.Lucas O. Ornaghi
Cruzando ruas feitas de mundos alheios aos
olhos do homem institucionalizado,
realidades colidem entre a luz e as trevas
numa batalha de eternos contrastes.
Em cada esquina vultos se escondem em sua
vergonha e desaparecem na escuridão, como
as sombras de um mundo de que não querem
mais lembrar e sua infeliz presença aceitar.
Um rosto que passa ligeiro se oculta atrás
de uma parede de vidro, observando com um
olhar calejado a tribulação de almas
desconhecidas que logo são esquecidas.
Nas lágrimas da criança que desamparada
caminha errante pelas ruas e semáforos,
facilmente se interpreta o desgosto de
vidas ignoradas vivendo o incerto despertar.
Inocentes, injustiçados, nomes nunca
pronunciados, vagabundos e criminosos são
os que lhe foram batizados, os nomes dos
discriminados e pelo sistema descartados.
Disparos irrefletidos inserem novos
fantasmas na noite, enquanto lúgubre se
esvai o sangue de um jovem vitimado pela
arma de um tolo, que logo é inocentado.
Desesperadas protestam suas vozes que
precisam ser ouvidas, mas ecoam em vão e
inaudíveis chegam clamores nunca
atendidos, só nas preces dos fiéis ouvidos.Lucas O. Ornaghi

Vacante a alma humana sustenta sua existência,
confinada a uma alienação que perpetua calada
a sua dolência.
Desgostoso o homem fecha com tijolos o mundo
além dos seus olhos, e o universo em solidão
chora sem ser encontrado pelo devaneio poético.
Sentado na Lua, um poeta viaja agora em seus
pensamentos rumo ao insólito, percorrendo
caminhos ínvios para atingir mundos inefáveis.
Na noite sombria a poesia renasce indelével e
sublima o ignoto, e nela o poeta vê além da
gnose da qual se vangloriam os ressabidos.
Na terra dos sófos luzernas cortam as trevas
da noite e são perseguidas por passos céleres, o
som que ecoa das paixões reprimidas da psique.Lucas O. Ornaghi