sábado, 31 de julho de 2010

CONCLUSÃO DO DESILUDIDO

Ó semblante constante de outrora, acanhado e
enlevado contemplava a sua resplandecência,
mudo anelando seus traços divinos e obsesso
lamentando minha dependência. Ó semblante
perturbante de outrora, a verdade é que tu
não mais diferes agora.

No abrolhar de muitas alvoradas perdidas, em
meu devanear, a pintava do âmago de minha
alma com os mais belos versos apaixonados,
mas em minha obsessão fui consumido pela
consternação, e prostrado pela dor mergulhei
em um grande clamor.

O meu corpo começou a se definhar em meio a
tanta ingratidão, insensibilidade e rejeição, e
nas trevas do chão de meu quarto, rodeado
por versos inacabados e copos esvaziados,
ouvindo o sussurro das sombras em meus
ouvidos, em minha languidez temporariamente
enlouqueci e de viver esqueci.

Teimando com a minha alma, eu, um renegado
paciente, para ela um incômodo insistente,
mantinha-me à espera de um mero gesto de
apreciação, de um pouco de gratificação, mas
quando me dei conta de que seu olhar nunca
percorreria-me sabia que frustração
novamente eu teria.

Na minha ardente dedicação, levianamente
vivia meus dias em função do que agora não
passa de uma decepção, de uma estrela
apagada em meu coração, de um buraco negro
de sofrimento, de uma mera recordação já se
ofuscando no esquecimento.

Aprisionado à rejeição e lamentação há muito
deixei de estar, pois com o tempo fui compelido
a mudar, em uma pessoa consciente a me
transformar, e agora sei da tolice que há em no
amor se desperdiçar o limiar de uma existência
que não tarda para se findar.


Lucas O. Ornaghi

AMOR DESESPERADO DE UM SONHADOR

Apegada ao frio do inverno, desponta essa manhã de
pálida primavera, e sôfrego rezando para que ouças
meu clamor, desesperada minha alma sonha em ter
seu amor, tu que és tão singular quanto o rebentar de
muitas das flores que mais tarde envolverão esse
horizonte de perfume e cor.

Contemplar o abrolhar das primeiras delas é enxergar
a essência das belezas ocultas de nossa mãe Gaia,
mas por mais que a natureza a mim distraia, é com
sua saia que sou fustigado, que sou tentado,
conduzido à perdição e aprisionado a essa paixão de
contínuas dores de aflição.

Na alucinação de um dia conquistar seu coração,
acordo martirizado pelo viver desorientado de um
jovem aterrorizado, que fica imobilizado quando te
vê, sem saber como reagir, sem reconhecer o que
pela primeira vez está para sentir.

Minha consolação é que agora, embora eu ainda não
tenha o seu coração, através desses versos tu terás
noção de que por ti estará sempre preservada a minha
sincera afeição, uma vez que te amar se faz minha
eterna motivação.


Lucas O. Ornaghi

ETERNO DESENCANTO











Era o mês de abril, eu me sentia tão vazio
quando de um lento fastio das trevas da
noite ela surgiu, vulnerável me viu, em
seguida sorriu, e meu coração sucumbiu
e não resistiu ao anelar esse anjo que das
sombras luziu, me seduziu e depois partiu.

Na escuridão de uma noite sem Lua, nem
estrelas, sua voz de calhandra me guiou,
o perfume trescalando de seus cabelos a
brisa levou e me enfeitiçou, sua rara
beleza a paixão despertou, seus lábios
minha alma escravizou e ao beijo da
morte me condenou.

Nas horas mortas nós dançamos com a
musicalidade do vento, e sob o frescor do
relento ela me amou e sugou minha
mortalidade quase à última gota de
humanidade, que no solo caiu e
lentamente se esvaiu da felicidade
incompreendida da vida de simplicidade.

Tudo tão rápido como um arrepio na
minha vida se resumiu, a sede logo me
consumiu, a escuridão logo me abduziu,
o sangue humano como um
incomparável vinho também me atraiu e
um vampiro essa filha da noite produziu.

Sem maldade, sem responsabilidade,
vivi na naturalidade de minha nova
identidade, na insanidade de uma
constante necessidade, e ao passo que a
minha idade avançava, eu continuava
um jovem da eternidade, de séculos de
mera vaidade.

Milênios se findaram, vampiros o sangue
dos vivos sugaram, mas enfastiei-me ao
permanecer cativo dessa existência sem
objetivo, ao viver tanto só para descobrir
que nada passou de um eterno
desencanto para uma alma há muito em
pranto.

Lucas O. Ornaghi

quarta-feira, 28 de julho de 2010

CORAÇÃO DE ESTUDANTE












Flutuando na imensidão do universo em questão,
um astronauta sem razão para ter olhos de glória,
não enxerga a escória, não entende nem se
surpreende com o rumo da História, não observa
A Terra que o homem faz de serva ou a religião
desse mundo em desespero e desilusão, que põe
no coração do cego o céu como segunda opção e
o inferno como incentivo à santa devoção.

Vejo da janela terras desoladas, casas pela chuva
levadas, lágrimas não consoladas, perdas não
evitadas, mulheres violentadas, cidades
bombardeadas, mães que pelo desespero foram
tomadas, velhas adoentadas, crianças apavoradas
que choram amarguradas, faveladas vivem
esfomeadas, desorientadas, não amadas, nascendo
para serem abandonadas e pela rua criadas.

Em meus pesadelos almas flageladas ecoam vozes
que no escuro tristeza sussurram, minhas mãos
geladas suam, meus olhos não mais se situam, mas
não recuam, sabem que estou distante, longe de
estar o bastante para saciar a insatisfação de meu
coração de estudante, que nunca teme o que lhe
está adiante, continua sempre avante, sem deixar de se

preocupar e sua paixão pelo mundo se arraigar.

Pensamentos voam em minha mente, palavras ecoam
de repente, ideias em meu subconsciente redefinem o

presente, e de um jovem consciente se concebe um
pensador excelente, um descobridor inteligente, uma
pessoa eficiente, ciente desse ambiente que abriga
meu mundo carente e as pessoas descrentes,
personagens de um quadro deprimente que ainda
se mostra presente.

Cansei de ignorar o vermelho luar que sangra acima
do mar de insanidade em que se afoga a humanidade,
e enquanto o mundo rodando alto está clamando,
prossigo com meus olhos estudando, o conhecimento
das páginas dos livros buscando, o misterioso da vida

experimentando, meus sentimentos poetizando, meus
devaneios estimulando, meus sentidos explorando e a
mim mesmo ao viver de cada dia superando.



Lucas O. Ornaghi

segunda-feira, 26 de julho de 2010

VIDA VÃ














À medida que a escuridão de quarteirão em
quarteirão chega a ti como um grilhão,
observe um mundo de sofreguidão partilhar
de uma mesma ilusão e cedo também te
levar para a perdição.

No ritmo dessa alienação muitos ainda
dançarão, suas almas entregarão, seus
sonhos matarão e nessa nova condição
paixões jamais cultivarão, felicidade já não
conhecerão.

Os anos passarão, as cãs logo aparecerão e
em lassidão e sem realização aos poucos
todos um dia sucumbirão, pois insatisfação
seus olhos revelarão e sua própria existência
deplorarão.

Tarde ressentirão ter gastado uma vida em
vão, ter vendido o coração e sacrificado a
compreensão, a percepção, tempo que agora
não passa de rápida abstração, de uma
dolorosa decepção.

A cada nova emoção, em seus íntimos
renasce a perturbação, a evocação de um
passado de desilusões, difíceis lições que
trazem a sensação de um vazio sem solução,
de um fastio sem resignação.



Lucas O. Ornaghi

quinta-feira, 27 de maio de 2010

FILOSOFIA DO COVEIRO POETA

Com a chuva se misturam lágrimas superficiais
de um bandido, ao passo que rubro e sem
sentido se esvai novamente despercebido o
sangue de mais um que foi pelo mal rendido.

A luz da aurora ilumina uma mórbida viela de
vidas ceifadas, vozes não mais pronunciadas,
fazendo da abstraída menina que vai para a
escola vítima eterna de rostos sem vida.

Olhos frios de um policial percorrem com
normalidade a atrocidade da alma perecida,
que na dor de cada indelicada ferida gritou em
protesto contra os abusos de seu homicida.

Durante a noite o médico-legista assoviando
logo vai acomodando lúgubres hóspedes numa
comprida gaveta, sala de espera que anuncia
o fim da vida desses bebês de proveta.

Na cova escura os pensamentos perecem,
inativos e em decomposição corpos
desaparecem, incorporando-se ao solo do qual
foram formados e terminaram desafortunados.

Mas não vá com a morte se perturbar, não há
um só fantasma que voltou para reclamar, não
há sombras na escuridão, apenas anonimato e
um retiro inanimado de solidão.

Lucas O. Ornaghi

domingo, 9 de maio de 2010

MUNDOS JAMAIS PENETRADOS












Viver se tornou um desespero silencioso, um
envelhecer ocioso. Deveríamos usar o tempo para
amar e não sermos tolos em ficar à mercê da
incerteza que essa vida nos vai arrastar.

Queremos dormir, por poucas horas partir, não
mais existir e a angústia deixar de sentir, mas não
deixam-nos nem no sono fugir. Clamemos então
como o som de vozes perdidas a se propagar.

Sem saber onde pisar aprendemos a orar, a
esconder a lágrima que brilha no olhar. Oramos
para as vozes reprimidas da psique expulsar e de
quem amamos não termos mais de nos afastar
nem nas sombras quem somos ocultar.

A vida de ponta cabeça é difícil como um quebra-
cabeça, pois em mundos jamais penetrados não
existem respostas, nada é definitivo e tudo se
perpetua na estrada para o enigmático.

Somos todos sombras uns para os outros, tão
obscuros quanto o próprio universo, que se
estende além do alcance dos olhos, que abriga
mundos inexplorados, jamais penetrados.


Lucas O. Ornaghi

domingo, 2 de maio de 2010

RUA DAS SOMBRAS ERRANTES

Cruzando ruas feitas de mundos alheios aos
olhos do homem institucionalizado,
realidades colidem entre a luz e as trevas
numa batalha de eternos contrastes.

Em cada esquina vultos se escondem em sua
vergonha e desaparecem na escuridão, como
as sombras de um mundo de que não querem
mais lembrar e sua infeliz presença aceitar.

Um rosto que passa ligeiro se oculta atrás
de uma parede de vidro, observando com um
olhar calejado a tribulação de almas
desconhecidas que logo são esquecidas.

Nas lágrimas da criança que desamparada
caminha errante pelas ruas e semáforos,
facilmente se interpreta o desgosto de
vidas ignoradas vivendo o incerto despertar.

Inocentes, injustiçados, nomes nunca
pronunciados, vagabundos e criminosos são
os que lhe foram batizados, os nomes dos
discriminados e pelo sistema descartados.

Disparos irrefletidos inserem novos
fantasmas na noite, enquanto lúgubre se
esvai o sangue de um jovem vitimado pela
arma de um tolo, que logo é inocentado.

Desesperadas protestam suas vozes que
precisam ser ouvidas, mas ecoam em vão e
inaudíveis chegam clamores nunca
atendidos, só nas preces dos fiéis ouvidos.


Lucas O. Ornaghi

sábado, 3 de abril de 2010

TERRA DOS SÓFOS


Vacante a alma humana sustenta sua existência,
confinada a uma alienação que perpetua calada
a sua dolência.

Desgostoso o homem fecha com tijolos o mundo
além dos seus olhos, e o universo em solidão
chora sem ser encontrado pelo devaneio poético.

Sentado na Lua, um poeta viaja agora em seus
pensamentos rumo ao insólito, percorrendo
caminhos ínvios para atingir mundos inefáveis.

Na noite sombria a poesia renasce indelével e
sublima o ignoto, e nela o poeta vê além da
gnose da qual se vangloriam os ressabidos.

Na terra dos sófos luzernas cortam as trevas
da noite e são perseguidas por passos céleres, o
som que ecoa das paixões reprimidas da psique.


Lucas O. Ornaghi

sexta-feira, 19 de março de 2010

TRAGADO PELO SISTEMA


Vivendo o que já conheço, sem aprender tudo
que há para se saber, procuro conhecer MAIS
do que meus olhos podem ver, MAIS do que
muitos podem ler, MAIS do que os quadros
aparentam ser, MAIS do que os sábios
declaram saber, MAIS do que o mundo
professa crer.

Rumo AO QUE DESCONHEÇO meu coração
quer me levar, e INSATISFEITO INSISTO EM
ESTAR para nunca parar de buscar enxergar
a poesia presente em qualquer lugar, mas
quando eu começo a querer pensar, não
demora até esse mundo vir para me tragar.

Ao passar de cada dia sem alegria me vão
achar, porque o sistema procura sempre me
fatigar, e quando eu chego em casa SEM
FORÇAS PARA SONHAR, FICA DIFÍCIL
NÃO SUJEITAR MINHA MENTE para
acordar no vazio conseqüente desse mundo
descrente e oprimente.

Assim, impaciente esqueço-me de sorrir,
esqueço de dormir, preferia fugir, e SEM TER
PELO QUE VIVER, alienado e a fim de
desaparecer, no pirar devaneado de
cada instante, meus minutos se tornam o
tempo conflitante de horas agonizantes.

Enquanto eu SOU MASTIGADO por
infinitos pensamentos, infinitas
preocupações, corações extenuados
batem à minha volta acelerados a batida
desse sistema, que não te permite respirar,
nem te dá tempo para se recuperar e o viver
conseguir poetizar.

CANSADO de me levantar, de transpirar, de
me irritar, de me desgastar, JÁ NÃO
ESPERO ser possível me apaziguar, pois
por mais que eu queira o misterioso
experimentar, explorar e decifrar, essa vida
só vai me fazer aderir à preguiça de pensar.


Lucas O. Ornaghi

segunda-feira, 15 de março de 2010

O MUNDO DO POETA E SUA PSIQUE

Para introduzir os textos das próximas postagens, embora já tenha postado sobre a Censura Implícita, acho importante resgatar o tema. A coleção de poemas intitulada O Poeta Acorrentado e Sua Psique aborda a condição do ser humano do século XXI, sobretudo a sensação generalizada de se sentir aprisionado e a necessidade de se resgatar uma percepção que se perdeu, permitindo novamente a entrada das luzes na “janela da alma”. Entendamos melhor.

O ser humano vive acorrentado a um modo de vida imposto pela sociedade contemporânea, que massifica a maneira de pensar e agir de modo que tudo se torne tão sistemático a ponto de limitar ou comprimir a sua visão do mundo e de si mesmo. Os ideais pregados e incutidos são logo aderidos através de um constante bombardeio de informações e ideias que se repetem com grande velocidade, fixando-se no intelecto de maneira inconsciente, porém ainda capaz de exercer uma influência de peso no pensamento.

Os meios de comunicação se tornaram não apenas um canal de influência, mas uma forma de controlar o ser humano e até mesmo de indiretamente reprimir ou estimular convicções e ações. Assim, as pessoas permanecem confinadas às paredes invisíveis de suas psiques, vítimas de uma censura que cega e aliena, levando a uma aceitação de ideias e mensagens sem um pré-julgamento.

A busca pelo alcance da felicidade é um reflexo das ambições fomentadas pela realidade de uma sociedade globalizada, mas depois se converte no ato de desespero que conduz à procura por "portas de saída", a procura por alguma paz, por meios de escapar da vida submissa a perenes anseios. O homem é institucionalizado e limitado por uma existência sustentada pela superficialidade das relações e a execução de atividades mecânicas, sendo gradativamente cegado com alvos vãos e uma visão distorcida de felicidade e progresso.

O acesso a essas "portas de saída" se dá através de distintos caminhos, como a religião, a "superioridade" da arte, o prazer imediato da vida baseada no carpe diem ou no epicurismo, o suicídio, que "soluciona" a existente incapacidade de confrontar o presente, o encontro genuíno do amor e amizades, a escolha de uma vida simples, talvez não influenciada pela instabilidade das tendências do sistema, e o estoicismo, que diz que todo excesso resulta em desequilíbrio e infelicidade; a felicidade está em retirá-la das pequenas coisas, ou seja, é preciso saber viver para saber morrer.

Quando se aborda, por exemplo, a religião como instituição, nota-se que esta tem exercido um impacto negativo com a sua adulteração, já que antes de ser um bem comum, dissemina mentiras que distorcem valiosos princípios e ensinamentos. Além disso, agrega uma minoria de aproveitadores que se apresentam como pessoas tementes a Deus, mas não passam de "falsos profetas" que idolatram os deuses desse sistema e acabam enriquecendo à custa de seus adeptos. E ainda há outros que dissuadem homens a apoiar e provocar atrocidades, impelindo o sacrifício de suas mentes ignorantes, que não enxergam o papel de suas vidas na promoção dos interesses sempre de uma elite que cobiça o desejo de ascensão. 
O fato é que a escolha do indivíduo é o que o capacitará a enfrentar o drama existencial da vida ou não. Sob o perpétuo confinamento da alma a seus almejos, nascemos e morremos escravos da insatisfação. Ao passo que cavamos o infinito com a lâmpada do sonho, abafando as queixas implacáveis de nosso íntimo, não somos capazes de saciar o que cobiça e desespera o coração, o que nos faz depreciar nossa existência e nos deixa angustiados ao cavarmos os abismos das eternas ânsias.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

O CIDADÃO – A FORÇA PENSANTE DA NAÇÃO

Quantos artigos já não escreveram sobre a importância da educação e de como o acesso a uma educação de qualidade se refletiria positivamente na vida dos economicamente menos favorecidos. É, infelizmente, bem popular o fato de que ainda existem muitos jovens em idade escolar que nem sabem o que leem, não conseguem identificar linhas de raciocínio distintas ou compreender o humor. Mas gostaria de parar para enxergar essa situação de outra forma. Imagine quantas mentes jovens e pensantes tem seu potencial hoje desperdiçado.

Deveríamos enxergar a importância de todos exercerem a responsabilidade individual de exercitar a faculdade de raciocínio, a importância de cada cidadão ser uma manifestação viva da força pensante da nação, uma pessoa de atitude bem posicionada em relação ao que observa; a importância de não ser mais uma marionete do sistema, de mente massificada e inoperante que tem preguiça de pensar, mas autônoma, crítica e contestadora. De fato, se as pessoas, independentemente dos seus níveis sociais, aprendessem a pensar, isso se refletiria em toda a sociedade em forma de desenvolvimento.



Lucas O. Ornaghi

segunda-feira, 14 de dezembro de 2009

A Utilização da Arte na Propaganda Agrega Valor Para Todos?

A criatividade artística é fundamental para despertar a sensibilização emocional sobre públicos diversos e seus universos particulares, auxiliando no desenvolvimento de um conteúdo estético capaz disso. A arte se incorporou e modificou no mesmo ritmo da sociedade de consumo, uma vez que as influências entre a arte e a propaganda ocorreram no mesmo sentido. Assim, as manifestações artísticas assumiram a arte como um ritual conformista, desde a Pop Art e Minimal Art até a Arte Conceitual.

Abraham Moles, em sua obra O Cartaz, faz menção à civilização contemporânea como sendo ‘a civilização da imagem’. De fato, o mundo globalizado vive à mercê dos constantes bombardeios de imagem e informação da Indústria Cultural e de seus meios de comunicação de massa, tendo a propaganda na arte uma condição de existência.

Elza Maria Ajzemberg em seu estudo “Modernidade e/ou pós-modernidade?” alega que ‘o homem é seduzido pelo objeto, para se inserir no circuito do capitalismo como obra de arte’. Assim sendo, a publicidade por meio de signos artisticamente dispostos na imagem é um instrumento gerador de múltiplos estímulos para atingir o perfil de cada consumidor ou interpretante potencial, que constrói a sua percepção a partir da realidade ao qual está inserido.

O papel da publicidade hoje é o de adequar continuamente a sua manifestação artística aos media ou suportes dos meios de comunicação, que utilizará no intuito de provocar a sensibilização do consumidor. Essa sensibilização intenta levá-lo a negar hábitos anteriores de vida e consumo, preservar determinados valores e oferecer um diferencial que justifique uma alternativa de consumo que se diz superior.

Repetidas vezes peças publicitárias se utilizam de esculturas ou pinturas para agregar autoridade em suas mensagens, e essa estratégia contempla dois objetivos, que são riqueza e espiritualidade, fazendo da aquisição proposta a representação da união entre luxo e valor cultural. Assim, a publicidade se apropria das relações entre a obra de arte e o espectador comprador, prendendo a produção cultural ao circulo vicioso do consumo, tornando a arte gradativamente mais dependente do mercado. Seria essa uma ação de repercussão negativa para com a identidade artística?

Há divergência de opiniões quanto a esse uso da arte e a capacidade de agregar valor para todas as pessoas. Existem duas linhas de análise. A primeira se refere ao uso da arte na propaganda e a segunda aos efeitos da percepção do consumidor em relação a essa massificação da arte. Analisemo-las separadamente.

Em relação à primeira, para os adeptos da Escola de Frankfurt, por exemplo, que tem Theodor Wiesengrund-Adorno como um dos principais pensadores, utilizar a arte nas peças publicitárias de forma a massificá-la significaria degenerá-la. “O fato de não serem mais que negócios bastam-lhes como ideologia”, disse Adorno. Enquanto negócio, os fins comerciais são desempenhados através de metódica e planejada exploração de bens considerados culturais. Tal exploração ele chama de “indústria cultural”. Poder-se-ia argumentar que mesmo as propagandas mais estéticas às vezes são tão vazias de significado que não justificam sua forma. Seria então a validade dessa arte meramente comercial?

Walter Benjamin, outro pensador da Escola de Frankfurt, mostra que as técnicas de reprodução das obras de arte promovem a inutilização do elemento tradicional da herança cultural, reconhecendo que a massificação faz a função artística aparecer como acessória. Como afirma Bertolt Brecht, mencionado por Benjamin, “desde que a obra de arte se torna mercadoria, não mais se lhe pode aplicar a noção de obra de arte”.

Contudo, há um lado positivo sobre a utilização de arte na propaganda. O fortalecimento do posicionamento nacional no mercado internacional das artes tem como base do sucesso o investimento em obras que fazem referência ao seu sistema de valores, alega Ana Letícia Fialho, em seu texto “Mercado de Artes: Global e Desigual”. Uma das formas de promover esse fortalecimento é pelo aumento de referências em publicações e na mídia, sendo esse o “ponto de partida para a construção de uma história internacional da arte brasileira”.

O texto também traz como informação o fato de que ‘há políticas públicas de incentivo à produção nacional’, e já é conhecida a eficácia de fazer publicidade com arte pela maneira como o belo atrai a visão do observador. Por que então não disponibilizar incentivos fiscais para despertar o interesse das marcas a fim de criarem peças publicitárias, comerciais e embalagens que agreguem valor à arte nacional? Não seria essa uma forma de valorizar a cultura e difundir a arte?

A segunda linha de análise é sobre os efeitos da percepção do consumidor em relação à massificação da arte na propaganda. Pode-se começar refletindo que em uma obra de arte o belo está presente nela, mas depende de quem a contempla para que ele se revele. Da mesma forma se dá, por exemplo, na peça publicitária que usa alguma obra artística. Depende da capacidade de percepção de quem observa e associa a disposição dos elementos contidos na peça para determinar se o valor agregado pela interpretação será só comercial ou também artístico. Caso o indivíduo olhe para o elemento artístico presente na peça, mas veja apenas algo a ser consumido, ele não constrói princípios de beleza e compreensão sobre o valor da obra em si. E assim é indiferente quando isso ocorre.

Para introduzir alguns conceitos sobre a capacidade perceptiva do ser humano, os estudos de Charles Sanders Peirce (1839-1914), filósofo, cientista e matemático estadunidense, fornecem uma boa base a partir da pesquisa semiótica. Do ponto-de-vista semiótico, a percepção é onde se origina o pensamento. Peirce alega que “o pensamento lógico entra pela porta da percepção e sai pela porta da ação deliberada”. Observação, ação deliberada e pensamento constituem uma tríade que descreve as categorias da mente e da natureza sobre as quais Peirce desenvolveu a Teoria Geral dos Signos, que tem o signo como referência para se analisar os níveis de percepção sobre o mundo.

O homem é um ser decifrador de signos que constantemente moldam a sua percepção e atitudes. O julgamento de percepção é uma ação sucessiva, assim como é o pensamento e aprendizagem. Segundo a semiótica, a percepção dos objetos da realidade (objetivação) tem início na primeiridade (qualidades superficiais), passando depois pela secundidade (relações de causa e efeito) e terceiridade (formação de um conceito). Os feixes perceptivos (perceptos) que a natureza emite afetam a mente (percipuum) através dos órgãos dos sentidos. Assim, ‘perceber é estar diante de algo que se apresenta, utilizando outros sentidos sensoriais e aguçando o sistema cognitivo’, e a percepção se limita ao que o indivíduo tem condições de perceber.

Com isso em mente, não se pode alegar que todos tenham a mesma pré-concepção do real para compreender o significado dos signos da mesma maneira. A mensagem a ser observada é conseqüência da interação de signos comuns com um referente percebido subjetivamente por cada mente interpretante. O julgamento de percepção é uma ação sucessiva e inconstante, assim como é o pensamento e a aprendizagem, sendo a vivência pessoal e o grau de instrução fatores influentes. Portanto, a utilização da arte na propaganda agrega valor somente para aqueles quem têm condições de identificá-la e aceitam esse tipo de iniciativa e apropriação da arte.

Lucas O. Ornaghi